
"Être chez quelqu'un" é estar na casa de alguém. Aqui você está "chez la maman": na casa da mamãe, com o perdão do "la" para os preciosistas da gramática francesa. Dicas de uma mãe que arrisca e nem sempre petisca - mas tenta, sem medo de ser feliz; depoimentos sobre o dia-a-dia de dois moleques que enchem a casa de um barulhinho muito bom; desabafos de uma mulher que tá aprendendo a merecer o título. E receitinhas e pequenas descobertas do mundo que deixam, desde sempre, a vida mais gostosa.
domingo, 27 de junho de 2010
Tiramisù de hoje em diante

domingo, 20 de junho de 2010
ISMAEL ZANATTA JACKSON - THE PERFORMER, THE LEGEND.
terça-feira, 8 de junho de 2010
Genética - o mal do século, desde que se sabe que ela existe
terça-feira, 1 de junho de 2010
Da coragem

Não é incrível quando você finalmente senta na cadeira do cabeleireiro – coisa que só faço a cada 7 meses, apesar dos apelos quase ameaçadores do meu marido e da minha vó – e se dispõe a uma transformação generosa, pra então sair de lá i-gual-zi-nha e ainda com uns fios fora do lugar que vão te dar um trabalho de merda? Na boa, não faço escova, não seco o cabelo. Às vezes nem penteio quando acordo. Se a porra da mulher não teve coragem de me sugerir uma tintura ruiva e um permanente, ao menos me poupasse os minutos de pente depois do banho.
Mudar é foda. Porque, se “radical” não for a palavra de ordem, nada acontece. O cabelo continua a mesma bem-aventurada palhaçada que foi a vida toda, sem arrependimentos e sem novidade. A cabeça idem. Tenho me percebido, dolorosamente, uma pessoa cagona e sem atitude. Fico adiando o dia em que vou voltar lá, sentar na cadeira e dizer: pinta de preto, corta joãozinho e me chama de Bloody Mary. Fico adiando o dia em que vou pegar a herança da minha mãe e viver três anos na França, com meu amor e meus filhos. Fico preterindo as conversas importantes, as palavrinhas que podem machucar, os grandes medos, enfim.
Novinha, eu era a rainha da mentira. Cheguei a falsificar as notas do boletim e a assinatura do meu pai, na 6a série, porque tinha medo da reação em casa quando chegasse com vermelhinhas e advertências por mau comportamento. Hoje jogo duas culpas: uma nos meus pais, que me matavam de medo, apesar de serem tão amorosos quanto o chamego patermaterno permite ser; e a culpa maior jogo em mim mesma e na minha personalidade covardésima, que antes tinha pavor de encarar a bronca dos pais por más notas e hoje tem pavor da falta de harmonia no meio da sala e das pequenas coisas não-ditas que podem gerar ecatombes.
Se alguém morrer nesse meio-tempo de interrogação, que eu não sei quanto dura e nem se acaba, será que meu travesseiro vai permitir qualquer sono, sabendo que “things were left unsaid”? Claro que não. E aí surge a diferença. A transformadora nem se pergunta – vai e resolve e fala e muda pra França; a medrosa corre o risco de ver acontecer, pensa na vó sozinha e longe dos bisnetos, considera os sentimentos de quem pouco se fodeu pros dela, olha pra conta do banco, faz contas. A medrosa penteia o cabelo quando sai do banho e pensa que talvez tenha sido bom a cabeleireira não ter confiado na liberdade que lhe foi dada. Cortou três dedos, desfiou uns bagulhos e pensou com ela mesma: “essa aí é fogo de palha”. Covardes não mudam de vida – nem cortam o cabelo pra mudar.
PS (sobre a ilustração acima): o tema me lembra um livrinho que ganhei da Julie, minha grande amiga de infância e vida, que conheci quando morei na França, pequenininha feito joana de bolinhas, e que é minha menina-moça até hoje, aos quase 30. Filha de português com francesa, ela lia de tudo que brotava desses dois mundos - e me deu de presente uma história querida chamada "Cortei as Tranças", do António Mota. Pequeno e triste, o livro viria a ter muito mais a ver comigo do que a Julie poderia imaginar na época (a gente tinha uns 9 anos, se muito). Hoje pensei de novo nele, e nela. E no fato de eu não ter cortado as minhas. Enfim, remarco horário no cabeleireiro pra amanhã, a pedido do meu marido, que não quer voltar de viagem e me ver "ca mesma cara bagaceira" (sic meu, não dele - só está subentendido). E, pros curiosos, a Julie ganhou de mim, na mesma então-época, "O Meu Pé de Laranja Lima". Aquela bomba básica da literatura infantil brasileira, pra acabar com o coração da gente desde a mais tenra idade.